Opinião Formada


Por que eu amo esporte (motivo 05) - Uma história de Amor.

A Espanha não é um país comum, em alguns aspectos. Existem regiões que são verdadeiros países dentro da nação, e existem clubes que representam estas regiões e suas pretensões de autonomia e independência, bem como existem clubes que representam a satisfação com a coroa espanhola, dentro destas mesmas regiões. No País Basco, existe  a rivalidade entre o Athletic de Bilbao (o Athletic, uma história à parte) e o Real Sociedad (da capital San Sebastian), e na Catalunha, existe o Barcelona.

O Barcelona é mais que um time de futebol, é uma representação da nação catalã. O estádio do clube se chama Nou Camp (“nosso campo”, em catalão), e se todos os sócios resolvessem ir ao campo eles não caberiam: o estádio tem capacidade para “meros” 80 mil, e o Barça tem mais de 100 mil sócios. O apelido da equipe, Barça, é um tapa de luva na Coroa, pois no idioma espanhol não existe o cedilha. A equipe não usa patrocínio na camisa de jogo, por força de estatuto; seria conspurcar um símbolo nacional. Quando um ex-presidente do clube declarou que gostaria de modificar o estatuto para colocar patrocínio nas camisas, o estádio amanheceu todo pichado em catalão: “a Catalunha não se vendeu, que não se venda o Barça” e “o que o Barça quiser, o povo catalão paga. Peçam a nós”. O capitão da equipe usa na braçadeira as cores da Catalunha. Então, acho que se percebe que o povo de lá leva seu time a sério.

Pano rápido, voltamos no tempo um pouquinho, coisa de dez anos, talvez nem isso (isso é de memória): o Barça tinha em seu elenco principal, há tempos atrás, um moço chamado Guillermo, que se criou no clube, desde menino, e fez carreira. Seleção espanhola, capitão da equipe por anos a fio, único catalão na equipe titular em determinados momentos. Mesmo não sendo o jogador mais talentoso do mundo, o Barça ganhou diversos títulos com ele. Mas tudo muda, e foi trazido para o Barça um técnico holandês, Louis Van Gaal.

Pouco tempo depois, Van Gaal entupiu o time de holandeses (nada contra os jogadores em si, era um time realmente talentoso, era a época do Rivaldo lá também)... e, num dia desses, Guillermo convoca a imprensa e diz que, por não mais contar com a boa vontade do técnico e da comissão técnica, estava saindo do Barça depois de mais de dez  anos de serviços prestados. Ia para Florença, jogar pela Fiorentina, por que, embora amasse o povo e a cidade fosse tudo o que ele conhecia, ele era um jogador de futebol e queria jogar. E lá se foi o moço.

Naquele ano, meses mais tarde, Barcelona e Fiorentina se enfrentaram no Nou Camp. Guillermo, vindo de contusão, estava no banco de reservas naquele dia, e o Barça de Van Gaal (assim mesmo chamado pelos jornais de Barcelona) era um timaço; uma máquina bem azeitada, um dos favoritos ao título europeu. Já a Fiorentina era um time médio. E esse jogo eu vi, passou na televisão. Eu fui testemunha de um dos momentos mais lindos da história do futebol.

O jogo se encaminhava para o final e o Barcelona ganhava com facilidade, 4 a 1 salvo engano. Mas a torcida, estranho, estava quieta, calada... pois sabia que o seu Barça não era mais seu. Em troca de títulos, o time perdia a sua identidade, e eles teriam que se acostumar com isso... de repente, no meio do segundo tempo nada acontecendo no campo, uma vibração estrondosa... eu pensei na hora, “o Real Madrid deve ter tomado um gol em outro jogo ou algo assim”, pois aqui no Brasil quando o Corinthians toma gol a torcida do Palmeiras festeja. Mas era Guillermo, que tinha se levantado para aquecer.

Faltando coisa de vinte minutos, está o moço na beira do campo para entrar no jogo. E o sistema de som toca três acordes do hino do Barça, como se entrasse um jogador da localía, e anuncia: “en Fiorentina, sale............. e ingresa Guilllermooooooooo....

“AMOOOOOOOOOOOOOOOOOOORRRRRRRRRRRRR!!!!!!”, completou o Nou Camp todo, de pé. Nunca vi, em espetáculo esportivo nenhum, uma salva da palmas tão estrepitosa. O moço, claro, entrou chorando em campo, e, se aquilo fosse uma estratégia para tirar o cara do jogo, não teria servido tão bem: Amor não jogou nada. Eu também não jogaria.

E, por vinte minutos, com seu time ganhando com facilidade, o torcedor da Barcelona reviveu o passado, e cantou. Cantou todos os gritos de guerra de que se lembrou, glorificou, em Amor, todos os seus guerreiros antigos, catalães ou não, os que fizeram a glória de um dos grandes do futebol mundial. Cantaram as saudações específicas que só os capitães do Barça recebem. E aplaudiram, como loucos, qualquer toque na bola que deu seu ídolo, muito embora agora vestisse uma camisa toda violeta.

Neste dia, mesmo o Barça tendo terminado com uma vitória maiúscula, 4 a 2, o técnico começou a cair, não tenho dúvida nenhuma disso. O povo catalão não se via na equipe. Hoje o Barcelona é uma das potencias do futebol mundial, e é uma das grandes equipes “globalizadas”; craques do mundo todo lá estão, e lá joga o Ronaldinho Gaúcho que hoje, em minha humilde opinião, é o melhor jogador de futebol do mundo. Mas toda vez que o Ronaldinho faz molecagens com a bola como se fosse uma criança, toda vez que o elenco de craques baugrana  se reúne pra jogar, de vez em quando meus olhos escapam. E é batata, é só olhar a arquibancada que me arrepio. Eu vejo, e eu lembro que há por trás deste timaço mais que uma torcida. Tem um povo. Tem toda a Catalunha, uma Nação, que é feliz por causa do Barça.



 Escrito por Double Down Trent às 13h16 [   ] [ envie esta mensagem ]




Como desmontar.

Ok, saiu o novo do U2, e eu tô fingindo que nem percebi... aí me passa uma sequência de highlights de futebol americano de 3 minutos no Sportscenter da ESPN com "Vertigo", que é a música que mais se presta a highlights de esporte desde "Song 2", do Blur... tá, ok, tô indo na loja, caramba. Nem precisava empurrar.

Ah, e ouvi ontem a versão dos Chilli Peppers pra "Havana Affair", dos Ramones. Fiquei com vontade de catar uma Uzi e sair numa turnê assassina de três estados, mais o Uruguai... COMO, em o nome do senhor Jesus, pode alguém destruir assim, impunemente, com requintes de crueldade, um dos clássicos absolutos do rock? E ninguém faz nada!?



 Escrito por Double Down Trent às 11h57 [   ] [ envie esta mensagem ]




Por que eu amo esporte (motivo 186) - Os porcos alados.

Verona, na Itália, é mais conhecida por Romeu e Julieta que por qualquer proeza esportiva que tenha acontecido lá. Mas lá existem dois times de futebol, o Hellas Verona e o Chievo Verona.
O Hellas é o de maior torcida na cidade, e já foi campeão da Itália em 85 (levado por um centroavante dinamarquês chamado Elkjaer Larsen... não sei por que eu lembro deste tipo de coisa, mas enfim), e é tradicionalmente um time intermediário. Já o Chievo é um time pequeno. E os dois nunca tinham se enfrentado na primeira divisão da Itália, por um motivo: o Chievo nunca tinha chegado lá. E isso virou motivo de tiração de sarro: a torcida do Hellas, maior e mais acostuimada ao convívio com os grandes clubes da Itália, menosprezava qualquer menção a uma rivalidade veronasa, dizendo que pra haver rivalidade o Chievo teria que jogar contra o Hellas, e o Chievo teria que chegar na Série A pra isso. E isso só ocorreria quando os porcos voassem. Ok, os times se enfrentaram na Segunda Divisão várias vezes (o Hellas se tornou um dos chamados "times ioiô", que ficavam indo e voltando da primeira para a segunda divisões), mas os torcedores do Hellas ainda tinham isto pra se agarrar: o Chievo nunca, jamais, em tempo algum, chegaria a Série A.
Mas em 2001, o menor time da cidade chegou na Primeira... e, quando os dois times se enfrentaram em 2001, pela primeira vez na primeira divisão, a (menor) torcida do Chievo deu uma das grandes lições de bom humor da história na (em boa parte neo-nazi) torcida do Hellas: a grande maioria estava usando máscara de porquinho... e asas. Mesmo com a derrota do Chievo naquele jogo, a torcida fez uma festa incrível, de escravo liberto: finalmente, tinha chegado o dia em que os dois times da cidade poderiam ser citados como iguais.
Isso durou pouco: neste ano o Hellas caiu pra Segunda e o Chievo se manteve na Primeira, onde está até hoje. Mas hoje a torcida do Chievo é "il maiali volanti", "os porcos voadores", por conta disso.

 Escrito por Double Down Trent às 10h51 [   ] [ envie esta mensagem ]


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