Racismo e futebol.
Há coisa de dois, três meses, começou a acontecer uma situação que de imediato me incomodou: na Espanha (hoje o maior campeonato de futebol do mundo), mais especificamente em Madrid, toda vez que um negro da equipe adversária tocava na bola... começavam os ululos na arquibancada. Tentei aumentar o volume em um jogo, mas não consegui distinguir o que era. Só no dia seguinte, via imprensa, é que eu soube: os torcedores estavam imitando macacos.
Ok, a imprensa mesmo cogitou de se suspender jogos no estádio, de se tomar alguma atitude... mas a coisa ficou assim mesmo; a RFEF (Real Federación Española de Fútbol) disse, em comunicado, que era uma coisa localizada, de meia dúzia de torcedores, e que não seria justo punir a equipe pelo comportamento de alguns torcedores. Ficou assim.
Ok, pano rápido. A coisa virou um ritual habitual, e agora não mais restrito à Madrid; como se sabe, as massas não pensam por si, e agora torcidas inteiras ululam quando um negro adversário toca a bola. Isso antes não acontecia na Espanha... mas na Itália e na Alemanha. A Espanha, dado o pessoal nem ser tão arianinho assim, não tinha entrado na onda. E agora a onda vem se espalhando, os Ultras italianos (facções ditas ultra-nacionalistas das torcidas organizadas) estão fazendo isso também.
Ok, e na semana passada surgiram dois dados novos nesta situação. Primeiro, na quarta-feira, dia 09, três seleções patrocinadas pela Nike, Holanda, Portugal e Rússia, usaram em seus amistosos (contra Inglaterra, Irlanda e Itália, respectivamente) uniformes iguais, metade brancos, metade negros, como atitude de repúdio ao racismo (lindos, por sinal). Abaixo, foto do técnico de Portugal, o Felipão, ladeado por dois atletas da seleção na apresentação dos uniformes).

E a Nike está com um site (www.standupspeakup.com) em que as grandes estrelas negras do futebol patrocinadas pela marca (como por exemplo, o francês Henry e Ronaldinho Gaúcho) aparecem em um comercial bem interessante de repúdio ao racismo, usando duas pulseirinhas, uma preta e outra e branca, no mesmo pulso como símbolo.
E, sábado, aconteceu uma coisa que agradou vários setores da imprensa mas me inquietou. No jogo entre Zaragoza e Barcelona, o centroavante do Barcelona, um camaronês chamado Samuel Eto’o, estava sendo brindado com os ululos da torcida adversária o tempo todo. Aí, o cara fez um gol, num passe do Ronaldinho Gaúcho... e reagiu, comemorando o gol pulando feito macaco.
A imprensa achou que o cara tinha que ter feito mesmo isso (inclusive vários caras na ESPN Brasil, que respeito e reputo como os mais equilibrados do jornalismo esportivo brasileiro). Eu fiquei inquieto. Vejam: o que está acontecendo é certamente uma escalada, um aumento do nível e da virulência na expressão do racismo nos campos. Das grandes estrelas do jogo, é bom que se frise, muitos são negros... e estes caras, vendo que a coisa não melhora, que as torcidas só estão reagindo com mais racismo e ódio, e vendo que as instituições esportivas não mexem uma palha, estão se emputecendo, cansando de ouvir a torcida ulular.
A única atitude de repúdio, que ainda assim é louvável pra caramba, foi tomada com intuitos comerciais pela Nike, que, claro, quer vender mais material esportivo e depende das estrelas do jogo pra tanto. É absolutamente necessário que as autoridades, a FIFA, a RFEF ou mesmo o governo espanhol, tomem alguma atitude pra refrear os racistas; por exemplo, interditar estádios onde estas manifestações ocorram. Se a humanidade aprendeu alguma coisa sobre o assunto com o tempo, é que o racismo não vai embora só com a gente fingindo que ele não existe. Se ninguém faz nada em termos de reprimir mesmo, só piora, fica mais manifesto... e a piora do racismo leva ao confronto. Espero que isso não ocorra, mas se nenhuma providência for tomada, o rumo é o do enfrentamento, em algum momento lá na frente.
Escrito por Double Down Trent às 11h06
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When I was a child I had a fever...
Ouvi neste fim de semana duas músicas que não deveriam estar relacionadas, mas na minha cabeça estão. Duas versões: primeiro, a versão do Red Hot Chilli Peppers pra Havana Affair, dos Ramores... e eu fiquei pensando. Poxa, se é pra fazer versão, que se vá além, que se acrescente algo ao original... uma visão diferente, uma olhada por um prisma novo ao menos. e a versão de Havana Affair não só não acrescenta, perto do original dos Ramones fica sem brilho, parece (pelo menos pra mim) que sugaram a energia que havia na música. Ok, aí vi na MTV um clip da versão de uma banda americana chamada Scissor Sisters pra Comfortably Numb do Pink Floyd (o link é só pra áudio). E... bom, a versão me tirou do chão. Eu não sabia que tinha uma perolinha dance no clássico do Pink Floyd... e tinha, olha aí. Dileto leitor (ou leitora), você pode não ter um amante de dance music dentro de si como eu tenho, mas... não é diferente? Só pra eu lembrar que, se for refazer algo que outro já tenha feito, há que se fazer de maneira diferente... colocar algo que dê identidade pessoal à refação. Levar o modelo além; se não, nem mexer.
Escrito por Double Down Trent às 12h54
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O grande vazio.
Com o fim da temporada de futebol americano, começa a parte do ano que os americanos chamam de "big void", um grande vazio: futebol americano e beisebol em férias (os dois após belas temporadas, diga-se de passagem), o basquete ainda longe das fases decisivas e o quarto esporte, o hóquei no gelo, numa greve que ameaça o futuro da liga e que já comprometeu esta temporada 2004/2005 (pelo menos, estou dormindonas madrugadas em que deveria estar passando NHL). Ou seja, agora é a hora dos programas de homem mais forte do mundo na ESPN... e do futebol, o nosso, o que se joga com os pés.
Na Europa, as temporadas vão agora pra seus momentos decisivos, os campeonatos se afunilam e se define pra onde vai o dinheiro grande. Lá, futebol é uma máquina de fazer dinheiro. Quando, por exemplo, o Milan vem, leva o Kaká por coisa de dez milhões de dólares e o Berlusconi diz pra quem quiser ouvir que foi uma pechincha, acredite: em um ano, o retorno que o cara dá é de três a cinco vezes isso.
E aqui? Bom, ano passado falei pouco de futebol por aqui por que o nosso campeonato nacional me decepcionou amplamente. A brincadeira corrente em casa era a de comparar o campeonato brasileiro com o japonês; dado que o "pé de obra" mais qualificado já está no exterior, sobra só o boleiro de carreira (jogadores sem nada de especial que de repente, viraram o supra-sumo pela redução do nível da concorrência), os moleques (e mesmo estes estão indo pra paragens mais distantes, como a Coréia do Sul e a Ucrânia) e os "ex jogadores em atividade", basicamente jogadores de mais idade, "bananeiras que já deram cacho", atletas que já viram os seus melhores dias mas que ainda tem mercado.
Então, por conta disso, o Santos foi campeão com um time bem pior que o que foi vice no ano anterior, e só tendo mantido a base e o único jogador diferenciado do futebol nacional (o Robinho), é favorito pra tudo aqui por enquanto. O Corinthians, se conseguir colocar um time ao redor do Tevez, tem um futurinho... mas acho que não vai acontecer, dado que os parceiros comerciais que chegaram agora podem não estar a fim de investir forte pra jogar só o Brasileirão e a Copa do Brasil (ou seja, neste ano nada de exposição internacional). Vou dar uma acompanhada nas equipes neste fase dos estaduais só por que é um a pré temporada extensa... e por que o meu Palmeiras está na Libertadores, mesmo estando com um time ruim demais. Mas, se o Brasileiro virou uma espécie de Campeonato Japonês por que a fonte sem fim de talento finalmente começou a secar... pode até ser que o fenômeno seja continental, que a América do Sul inteira esteja sofrendo isso e que o timinho do meu Palmeiras até chegue mais longe do que eu espero. Já aconteceram coisas mais improváveis.
Escrito por Double Down Trent às 12h34
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